mensonge
  e então aquele que não deixou endereço finalmente encontrou seu lar. não era mais na mentira concreta do mensonge, agora abandonado. mas na simples verdade abstrata de todos os dias.

Escrito por .mensonge às 14h06
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- então está acabado?

- parece que sim. não tinha mais o fôlego de um jovem. agonizou durante alguns meses. ainda teve seus bons momentos. mas levará na memória, porque não há como prosseguir.

- é sempre uma decisão difícil.

- todas decisões têm sua dificuldade implícita.

o jovem rapaz pegou suas coisas. partiu para outra. estava acabado o trabalho por ali. a mentira continuaria. e como não? mas em outras terras. em doze toques. sempre com aquela sua simplicidade, deu adeus aos companheiros com aquele aperto de mão vacilante e sorriso caipira no rosto.

 

o segundo se despediu mais timidamente. não gostava desses momentos de emoção. preferia se afastar do que pudesse machucar. era um pouco covarde, talvez. seguia pela faixa da direita e evitava atalhos. mas buscava entradas em cidades sujas e aventuras desconhecidas. dizem que dali foi para um tal de spleen bar. ah, era, realmente, um romântico enrustido.

o terceiro e último também teve que aceitar. com um menear de cabeça, procurou o canto mais escuro onde aguardou alguns momentos antes de prosseguir a jornada. era também mais fraco do que podia imaginar, mas não havia ónde se agarrar. saiu sem deixar endereço.



Escrito por .mensonge às 16h27
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la soledad de dos.

 

As coisas ficam mais fáceis quando não se tem uma foto para se olhar, então o acordo era esse. Nada de sorrisos bem planejados, nada de documentários especialmente pessoais. E entre eles, fugas eram rotina. Correspondiam à mesma ausência, a mesma falta de dor em não criar algo excessivamente real. Respiravam o mesmo ar fatigado dos que não memorizavam as datas honestamente. Os olhos focados e objetivos, nada errado. Dois corpos procurando a razão para o não. Era uma questão temporal, temporária, tempestiva.

Era novo, e era ousado, e era a coisa menos inteligente a ser feita. Mas era preciso algo lá dentro. Espécie de mistura de esporte radical e filme alternativo. Então ele entrou, desbravando a casa, o quarto e a cama. E ouvia 'deixa essa vergonha de lado menino, deixa ela pra lá, deixa que só eu te beijo se você não quiser me beijar'.
A música conhecida na vitrola, os rostos iluminados pela luz de uma televisão ligada, só para não se sentirem solitários demais na coletiva solidão. Brasileiro tem essas manias doidas.

O sonho, depois o cigarro e o sono. E assim eles sabiam que a gente é mesmo preso a essa coisa toda carnal, que lembrança por lembrança se vende em loja da Kodak e o que fazia falta era a palma da mão acariciando o peito e o colo, e o grito, e o choro. Mas eles eram diferentes porque tinham consciência de que o mundo tem tantos bilhões, que querer se apoderar de um só peito e um só colo era quase uma vergonha em forma de poesia concreta, e que era tudo mais fácil quando ele não acordava ela antes de ir embora.

A felicidade deles não era nada e nem estava neles. Sequer estavam, sequer era alguma forma explícita de algo que pudessem chamar felicidade. Mas sem carta amarrada por fio de cabelo, cd com música favorita e travesseiro impregnado de cheiro de amor, era muito mais fácil se desfazer do que não havia sido feito, silenciosamente escorregar rua abaixo sem ter que recolher caixa em porta de casa com nome rabiscado, ou encontro marcado para desarmar aquela falta de amor. 



Escrito por .mensonge às 09h58
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[dias sem data]

era sempre difícil para ele. quando saíamos todos os amigos, invariavelmente alguém precisava se ligar um pouco no marco. bebia como se fosse seu último dia na terra e tragava o baseado de um modo que fazia parecer fumar um daqueles cigarrinhos de menta para garotas. era um cara forte, mas mesmo assim às vezes sucumbia aos exageros e terminava a noite em uma conversa amigável com o vaso sanitário, a última refeição boiando no meio de outros dejetos. esse não era o problema, porém. éramos todos tão jovens ainda, 16 anos e já começando aquela vida que achávamos tão torta e por isso nos esforçávamos por seguir. eu às vezes pensava que tinha lido os livros errado ou talvez um pouco antes do tempo. joão e carlos tiveram simplesmente o azar de me conhecer. e o marco...bem, o marco surgira como se já fosse da turma há tempos. deixe-me dizer que éramos uns caras assim perdidos na vida, daquele tipo que poderia ser expulso de casa a qualquer momento. mas ao mesmo tempo já buscávamos algum trabalho, medíocre que fosse - e era só nesse nível que arranjaríamos - para pagar nossa conta do supermercado em carrinhos recheados de bebida, salgadinhos e cigarros - tudo à base de rg falso, exibido com orgulho. 


éramos o lixo, o fundão, a noite maldormida. com os falsos dezoito anos começamos as primeiras aventuras de mundo adulto. lá estávamos, centro da cidade, num puteiro de onde fomos expulsos depois de meia hora, quando alguma coisa que nunca vamos saber o quê nos denunciou. talvez a expressão meio perplexa entre a timidez e o desejo no rosto daquela molecada. o próximo passo foi uma daquelas baladas descoladas, open bar, as garotas lindas já na fila, atiçando quem passava. melhores roupas, perfume e um pouco de vodka vagabunda na cabeça e lá estávamos nós.  desaparecemos e nos perdemos de nós mesmos no meio do álcool, das meninas e da música ruim. quando dei por mim estava sentado na privada de uma cabine, dormindo e já com os primeiros sinais de ressaca. saí dali e vi a pista quase vazia, poucos resistentes sobrando no salão. saquei o celular e vi coleções de chamadas perdidas. é, eu que tinha dado o papelão dessa vez. saí para a rua e procurei a pracinha, pra comer algum hot-dog barato feito por tiozinho simpático de camisa do corinthians. estavam ali os caras, um tanto quebrados também. parecíamos saídos diretamente das cenas extras de trainspotting ou das ultimas paginas de um bukowski. 

marco estava largado no banco, os pés jogados na grana, o tronco todo torto e os braços apertando forte uma garrafa de velho barreiro quase cheia. ainda bem, afinal, seria de se espantar se depois de uma festa daquelas ele ainda tivesse coragem de encarar a marvada. provavelmente era apenas necessidade de algo entre as mãos. seus olhos fitavam o céu e ele falava algumas baboseiras desconexas. joão virou pro lado e pareceu dormir confortavelmente no gramado. carlos estava em estado parecido com joão, mas levantou balbuciando alguma coisa sobre banheiro e desapareceu. 

"puta merda"

era o marco falando.

"eu quero minha casa eu quero um baseado eu quero mais uma cerveja e um dog. cara..."

então era isso. o que mais poderia querer?

"vai se foder, marco. você tá com essa garrafa aí na mão e não aguenta é mais nada. você só quer dormir, pronto, fica de boa. logo o carlos volta e a gente já vai embora".

então ele ficou quieto. por um momento pensei que tivesse dormido. não, estava só quieto. contemplando a noite. deviam ser cinco horas da manhã. quase dia. 

"freitas..."

"fala marcão"

"o que acontece comigo...eu..." - hesitou um momento. voltou ao silêncio. fiquei também mudo, esperando. sabia que, do jeito que estava, ele ia logo soltar o que queria, o que precisava falar. 

deu um gole na garrafa de cachaça, fazendo uma careta estranha. 

"tomei um pé na bunda da natália. merda. caralho. aí acabou tudo. tomei mais uns vinte de todo tipo de menina. e agora tô aqui, abraçado numa garrafa de pinga. não dá cara. não é isso o que eu quero. não entendo. mesmo". 

fiquei com pena. não que eu tivesse muitos motivos para isso. tinha levado quase tantos foras quanto ele e a última coisa que lembrava antes de acordar num banheiro sujo era de ser empurrado por uma gordinha horrível. mas era triste ver o amigo daquele jeito. talvez precisássemos acostumar mais a levar porrada. queria ir lá e dar um murro direito, certeiro, no queixo do marco. ver o sangue sair e dizer "agora bate em mim. vamos aprender essa merda toda". mas era cena de filme. deixe o clube da luta para lá. 

"eu entendo. eu entendo", disse, pegando o celular. 

"vou ligar pro carlos. acorda o joão. vamos dar o fora daqui"

"e vamos pra onde?"

"não sei. dormir, acho. cada um pra sua casa". 

"e o que vamos fazer amanhã? não tô mais muito afim de outra festa dessa"

"eu não sei marco. eu prefiro não saber".

levantei e olhei em volta. poucas pessoas na praça, a maioria em um estado semelhante ao nosso. no momento, cansado, com indícios de ressaca e vendo os amigos ainda piores...parecia não haver mais qualquer glamour naquilo tudo. as noites de loucura tinham menos sentido. pensei em como seria ter algo mais do que uma garrafa de velho barreiro para abraçar.

"puta merda, vamos logo embora. e me dá um gole dessa porra. já tô pensando besteira". 
 
 


Escrito por .mensonge às 13h50
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love is a losing game

Olhou em volta e percebeu que estava onde sempre deveria estar. O primeiro aviso veio da companhia no balcão do boteco. A cerveja de sempre e mais alguma bebida nova para quebra de rotina. O segundo veio logo em seguida. Poucos metros rua abaixo, os abusados correm na sexta-feira fria. Esquinas cheias como sempre.

O sinal vem do esmalte vermelho. Durante dois ou três segundos olhava fixamente para aqueles delicados dedos, as unhas perfeitamente pintadas. Ergue a cabeça, observando se alguém havia notado. Nada.

E engolindo a coragem como fosse pedra no estômago, só conseguia repetir que o 'amor é mesmo a maldade do mundo'. Esboçou algum ar de felicidade, balbuciou alguma canção que remetia a tempos de liberdade espiritual. Sentou-se derrotado. Não queria aceitar que talvez não houvesse realmente mais complicações, que havia encontrado a felicidade e ponto. Não poderia ser só isso. Teria que haver viagem ao deserto, solidão, mudanças climáticas e sangue que justificasse tudo isso.

Era preciso mais.

O terceiro e último aviso encontrou em uma pilha de CDs perdidos. Foi rodar pela noite, respirar o ar quente e úmido sem rota prévia. Pensava em como carregar o peso de não ser tão feliz como todos imaginavam que seria. Enquanto isso, Amy profetizava pelas caixas acústicas ‘love is a losing game’. A única coisa que ouviu nos últimos tempos e fazia algum sentido. Pelo menos por ora.



Escrito por .mensonge às 09h40
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sobre tudo o que não se pode falar

 

gostava de andar de trem, mas só de noite, quando via pelas janelas do vagão as avenidas vazias onde os poucos carros eram pontos vermelhos de luz traseira e se moviam harmonicamente, na direção oposta do caminho feito nos trilhos. então era como se estivesse, finalmente, indo na contramão dos fatos. era lento o caminho pelos trilhos e em algumas estações era mesmo difícil ler a placa que indicava o endereço correto. não importava. passava por ele algum cara vendendo cerveja gelada e esperança. na frente da porta, um mendigo que parecia estar em algum outro universo, na brisa de alguma droga ilícita, conversava com uma latinha vazia de cerveja vagabunda como se falasse ao telefone. intrigante. freitas viajava sozinho sem a ajuda de entorpecentes, levado apenas pelo leve balanço do vagão e pelas visões de ruas vazias da zona leste através de janelas escuras. nos entretempos, lia e relia nove palavras de uma mensagem na tela de cristal líquido do celular. "foi bom te ver. tava com saudades. um beijo". a mais simples das mensagens messiânicas. um versículo de sua bíblia particular, escrita após glória e calvário. gostava de reler os trinta e dois capítulos daquela novela, armazenados na memória do aparelho celular. uma novela sem muitos personagens nem audiência. agora pensava nos próximos passos. era incrível como conseguia dar tanta importância a um encontro de dez minutos e nove palavras digitais. havia visto patrícia rapidamente no dia anterior, enquanto andava com os amigos rumo a uma quadra de futebol. "oi tudo bem como vai quanto tempo vamos nos falar mais nos rever marcamos algo tomar uma cerveja ver um filme certo até a próxima se cuida gosto de você beijo". e de repente se vira sozinho ali na rua, patrícia caminhando para um lado depois de um último aceno, seus amigos para o outro em um papo descontraído que não combinava com a importância do momento. correu para alcançá-los. o rosto ainda quente do contato com ela. voltou para a companhia dos colegas em passos rápidos. discutia-se o clássico choque-rei. freitas permaneceu em silêncio. o confronto entre seu time e os combinado dos estudantes de publicidade não parecia mais importar. mas a alternativa era pensar e reviver e lamentar o encontro casual e fútil com a patrícia. e pensar se realmente aquele diálogo-padrão podia significar alguma coisa. e imaginar o que andaria ela fazendo, com quem estaria se envolvendo e todas essas coisas. sentiu um princípio de dor de cabeça. doença relâmpago. já na quadra, colocava as luvas. era melhor se concentrar ali. dois tempos de vinte minutos e tudo resolvido, com placar final e vencedor claro. agora rememorava o confronto. vitória suada, sete a cinco com direito a grandes defesas. descia agora dos vagões, em uma estação bonita e grandiosa, mas semi-vazia e um tanto deprimente naquele momento. hoje não tinha um confronto mais imediato para desviar a atenção. os amigos estavam todos ocupados com quaisquer coisas e ele estava ali, sozinho rumo aos mesmos bares de todo fim de semana. parecia a cada sábado um pouco mais perdido, os olhos verdes se descoloriam e logo seriam cinzas contra a pele cada vez mais pálida. como um andarilho, desceu as escadarias com rosto inexpressivo e passos lentos. talvez não precisasse da patrícia ou de jogos de futebol ou de cerveja no bar do zé todos os sábados. eram, afinal, suas únicas certezas e eram tão incertas quanto o significado de nove palavras em torpedo SMS sem pontuação e sem delongas. pegou o metrô e se deixou afundar no barulho alto da composição passando pelo subterrâneo da cidade. passou da estação.desceu duas depois. não signigicava nada, talvez fosse apenas piorar as coisas. talvez terminasse a noite perdido sozinho em um bairro desconhecido. mas precisava somente de mudanças e de certezas que não evaporassem ao primeiro sinal do sol.   



Escrito por .mensonge às 12h28
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pedro não comia putas.

freqüentava a mais baixa esfera da sociedade, dormia em sofás sujos e tomava drinques fracos ao som de música ruim. assistia stripteases feitos com empolgação nula, via marmanjos, garotos espinhentos e japoneses de terno armani e pose milionária dividirem o mesmo teto e trocarem palavras empolgadas sobre a performance da garota loira no palco desajeitado. conversava, ele também, com todos esses tipos e encontrava perdidos vindos de todas as direções. seguiam, afinal, o mesmo mapa que indicava caminhos confusos para lugar nenhum. e ainda assim conseguiam chegar perto: deviam estar a poucas quadras do limbo.

mas pedro não comia putas.

diferenciava-se do senhor grisalho, do adolescente classe média, do jovem libertário, do casado aventureiro. não era por falta de dinheiro, não era por convicção moral, nem mesmo por asco ou falta de tesão. ele simplesmente não poderia explicar. não se achava melhor nem pior do que ninguém por isso, não condenava puritanos nem putanheiros. mas mantinha-se longe do sexo pago à vista. isso, vindo dele mesmo, era estranho, assustador, difícil entender como o rapaz que pensava comprar o mundo no cheque pré podia pensar tão mesquinhamente, dar as costas ao poder do dinheiro contra as desventuras sexuais de seus vinte e dois anos.

ia embora sempre com a promessa de não voltar. não tinha remorso, nem segredos, culpa jamais, paixões sim, tantas que não se incomodava em adquirir mais uma, nem que fosse por uma garota da noite com preço fixo e horário controlado. eram tantos amores que ele não sabia mesmo amar e então seguia o caminho sem volta, brincava no submundo e se divertia tentando ser um deles. não era.

 



Escrito por .mensonge às 02h52
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 .sem ponto de fuga

 

- isso não leva a nada.

- você fala como se soubesse para onde quer ir.

realmente não sabia e isso causava algo como um calafrio. aquela estranheza, um aperto no peito, franzir do cenho, piscar lento dos olhos.

- espero continuar assim. no dia em que meus rumos puderem ser desenhados como uma reta ou explicados como um caminho em um mapa, eu desisto.

era engraçado. falava aquilo mas podia ser encontrado todos os sábados no mesmo bar. o carro ficava estacionado sempre na rua ao lado, debaixo da árvore e em frente ao posto desativado. a cerveja era sempre a brahma e a volta pra casa ao som de reggae e mpb.

- claro. sua vida é um círculo, não uma reta.

- como órbita sem ponto de fuga.

- e sem lua para reger as marés.

- estamos falando como os caras do horóscopo.

- a diferença é que eles nunca acertam.



Escrito por .mensonge às 02h34
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Estava a dois quilômetros de casa e ainda assim perdido e querendo somente voltar para um lugar que fosse como um lar doce lar. Como quando pegava o carro e fazia o caminho de volta sabendo todas as conversões e ruas, sem olhar placas ou fazer dúvidas. Peguei a garrafa e coloquei mais um gole no copo, ainda quase cheio. Pedro fitava a mesa com olhos cansados. Estávamos em uma terça-feira, uma noite comum daquele mês de setembro, que chegava ao fim junto com a minha paciência e sossego. Algum descaso com o semestre letivo permitia um encontro para conversa séria em meio à semana. Uma mensagem de celular convocava. “Breja no Zé?” Pedro respondera que sim, com um “to lá em meia hora”.

Um pouco de silêncio. Na mesa e no bar. Além de nós, havia mais três pessoas por ali, todos acima dos quarenta anos e com o rosto castigado pelo tempo, pela cachaça e pelas desilusões. Eu e Pedro, vinte anos recém completos, destoávamos do ambiente mas não chegávamos a chamar a atenção. Ali eram raras as intromissões. Cada freqüentador mantinha um diálogo solitário com o copo ou com o Zé, normalmente algum papo sobre o atual cenário político ou a tabela do campeonato brasileiro.  

Era difícil pensar, acreditar, assumir que dois sábios pregadores da promiscuidade e do descomprometimento estavam ali, mudos frente a garrafas que se esvaziavam, sem palavras de consolo mútuas. Sem Bíblia para guiar as ações, sem mapa que desse o caminho na estrada, sem números de telefone para encontrar palavras de consolo, sem horizontes azuis em meio às manhãs cinzentas da grande cidade em uma primavera de muito frio e poucas flores.

Pedro me mostrava mensagens de celular carinhosas de tempos atrás. Eu me apegava a mensagens de orkut e recados escritos a mão na última página do caderno. Éramos náufragos, agarrados a detalhes sem valor e esperando por alguma salvação. Só não conseguíamos saber qual era o momento certo de abandonar de vez um barco que parecia furado e se lançar ao mar e à sorte dos ventos. Esperanças, sempre, faziam com que o tempo perdido se acumulasse em ampulhetas sem retorno.

Era triste para mim seguir em frente sem âncoras, sem pesos. Por estranho que fosse, me pesava a leveza. Faltavam-me os fantasmas, o peso, tantos aprendizados, beijos errados, perdidos, roubados, mortos, tristes. Eu queria sempre a esperança da busca do tempo perdido, do recomeço, da glória tardia, do renascimento.

Colecionando fantasmas na gaveta de esperanças.  

 



Escrito por .mensonge às 23h45
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ainda por aqui

abro os olhos em um dez de setembro de sono, café e frio matinal. o despertador tocou como em todos os dias e a labuta seguirá sua toada normalmente. não se confirmaram os temores. ontem a comunidade científica temia pelo fim de todas as coisas. experimentos dentro de 27 quilômetros de túneis subterrâneos na Europa fariam com que átomos e micropartículas se chocassem. para simular o começo de todas as coisas.

tentando recriar um início, recuperar uma lembrança, resgatar o tempo perdido. ao mesmo tempo temendo o fim, o desastre, o buraco negro.

eu já tivera minhas experiências pessoais nesse campo, tão científico, mas tão impreciso. não adiantavam meus cálculos ou palavras bem escritas. as possibilidades é que se chocavam qual átomo, em embates épicos que somente eu podia presenciar. dúvida, timidez, contra medo, ousadia, loucura e ebriedade. como se preparando um drinque, misturava tudo e fazia os testes devidos. terminava, invariavelmente, embriagado e abandonado no metrô da madrugada em caminhos cada vez mais longos e solitários de volta para casa. ou a pé pelas ruas escuras da vizinhança, em reflexões embaladas por um joão gilberto cantando sussurrado em fones de ouvido.

afinal, o mundo ainda está aí. não veio o fim fácil, sem epílogo. como em minhas desventuras e experimentos, dando certo ou errado, tudo ficou. guardado. e seguimos em frente na busca da fórmula correta.

para o fim ou para o começo.



Escrito por .mensonge às 10h25
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constante epílogo.

Não que tudo aquilo de repente não significasse nada. O novo era sempre o novo e, afinal, existia um fascínio simples em conhecer sua intimidade. Por isso, quando fiquei sabendo subi correndo pela escada. Da casa enorme entrei em todos os sete quartos e, já consciente do destino, só a encontrei no último.

Ainda guardava calor o corpo repousado no sofá, em um quadro praticamente ultra-romântico pintado bem em frente às órbitas ainda embaçadas, ainda confusas. Inútil, ainda tentou buscar um sopro qualquer. Não achou, bebeu a cerveja e lamentou.

E foi só depois da vela de sete dias que entendeu: duro não era o beijo sem o teu, a visão limpa sem tua vista míope, o tempo ganho sem o teu perdido e as tolices sem tuas responsabilidades. Duro era ter que assumir o gosto pelo engano e aceitar, ainda que resignado, a minha dose de verdades inconvenientes e que pesavam nos ombros para alguém que sempre imaginou os passos tortos em cenas de filme. Difícil entender que aquele rumo errado, torto, era apenas uma certeza. Não acaso, não questão de tempo.

Queimou até o fim e apagou quando não existia mais chama. Sua vela que acendi em frente aquela foto que você nunca viu. E junto ao bilhete deixado na cabeceira eu pensava em todas as coisas não ditas, nos silêncios prolongados e tão reveladores quanto proféticos. Entendia só agora o apego à nostalgia sedenta, o egoísmo daquela presença ilegal, quando, na realidade, não podia carregar mais peso do que as poucas certezas permitiam. Sobrou a frase que resumiu um capítulo aberto no peito, nas folhas e nos sonhos. ‘Prefiro a mentira, pois a verdade derramada no ouvido é fria’.



Escrito por .mensonge às 00h54
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roots

 

uma canção de reggae é simples por si só. a base no baixo, a guitarra ritmada, a bateria leve. o vocal vai e vem conduzido pelo dub. como uma viagem sem pressa com paradas na estrada e bela paisagem no horizonte. como eu queria que fosse eu e você, tardes e noites sem obstáculos em ritmo de canção fácil. o melhor momento, nosso refrão, repetido sempre, cantado com gosto e leveza. você já sentiu como se estivéssemos em sintonia, em dança perfeita mas sem passos combinados ou ensaio? eu pensava que era assim, tão comum, até me ver longe de sua presença e ver que as outras músicas não combinavam com o solo, não preenchiam o vazio do ambiente e deixavam escapar notas solitárias que pareciam sobrar na melodia. perguntei se algum dia conseguiria reencontrar os acordes perfeitos de nosso repertório. o ponto de equilíbrio, nossa babilônia em chamas, o mundo caindo enquanto tocávamos juntos e nos tocávamos, encontrando sempre a melhor palavra, o melhor gesto, a filosofia perfeita mesmo que sem teorias quaisquer.

eu lembro as letras, lembro as notas, o ritmo.

canto baixinho o refrão enquanto ando nas ruas mais escuras, é meu mantra, minha saída, mas já parece fraco, sem aquele encanto de outrora. falta tua voz no dueto perfeito que agora busco sem sucesso nos classificados e nas ruas de toda a cidade.



Escrito por .mensonge às 16h05
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referências demais

depois de todas as promessas e buscas por novos rumos
eu estava novamente nos mesmos lugares, ou pior,
cada vez mais afundado na lama e na boca do lixo.
talvez não houvesse nenhuma escapatória além dos poemas
de amor
e reggaes sinceros de cadência perfeita.
eu seguia porque acreditava,
mas minhas leis não se escreviam em livros
sagrados e mudavam com a constância de uma chuva de verão.
subia e descia as escadas do inferno
e da desfaçatez com que me embrenhava
nos submundos, apreciando a decadência
e sentindo-me como parte da corja que habitava ruas esquecidas
e esquinas malditas.
cerveja, samba, escuridão,
beijos e alguma esperança.
voltava no primeiro metrô com cada vez menos respostas e um sono intranquilo
apoiado na janela.
a ressaca, a cama, o despertador tocando
irritante e desnecessário
na manhã salgada do domingo morno. 
então forçava a volta do sono, do sonho.

na cabeça, cantava o refrão e lembrava dos melhores dias.

do amor encontrado, mesmo que perdido.

e ainda lembrava de cabeça a música no rádio no dia derradeiro.
(que fingia esquecer).



Escrito por .mensonge às 02h37
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somente mais uma do calendário

o sol da manhã de julho sussurra palavras complicadas e frases rotineiras. o sol da manhã de agosto queima um pouco mais e faz gestos incompreensíveis. as nuvens dizem mais e a chuva, essa sim, se faz entender plenamente. então conversávamos, eu e aquela garoa fina do meio de tarde, em meio ao horário de almoço esticado por ausência do chefe e vale-refeição acumulado. na ausência de companhia, escutava algumas histórias tristes contadas por acordes simples de guitarra e percebia sempre a distorção das coisas, até no som do rock que me chegava aos ouvidos via fone e celular moderno com mp3. na lista surgiam sempre aquelas canções de dejá vú. ficava pensando se pulava para a próxima ou se me deixava levar pelas armadilhas do destino e da reprodução aleatória. eu já tinha tão poucas certezas e ainda me deixava guiar por opções randômicas. sem rumo certo, exceto a volta para o trabalho, para a escola, esse era o mês de agosto e eu ainda era o mesmo. agosto me parecia mais cínico e calado, não mais sonhador e romântico como em outros tempos. eu continuava o mesmo mas trazia cada vez mais máscaras. podia frequentar os bailes e dançar, mas não tinha muito jeito nos passos e coreografias e nem aquela animação toda de quem segue a canção popular. preferia rádios obscuras, letras em português e uma certa melancolia. preferia trocar de música e não lembrar daquele refrão. preferia dezembro e as esperanças tão bonitas de cada fim e início de ano. dezembro, ainda longe.

 



Escrito por .mensonge às 16h26
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o que te diz o par de zeros?
fim início ou recomeço, responde.
o simplismo das afirmações baratas me comove
e lembra
do livro de filosofia para jovens colegiais.

quero respostas prontas, questionamentos-padrão
mistérios cotidianos e palavras de ordem
qual mandamento bíblico.
exercícios resolvidos após o intervalo,
nota em números decimais
e alguma explicação adicinal.

tudo o que for preciso.

eu só queria, da maneira que fosse,
estar pronto para a PROVA FINAL.



Escrito por .mensonge às 00h59
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HISTÓRICO



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