mensonge
 

roots

 

uma canção de reggae é simples por si só. a base no baixo, a guitarra ritmada, a bateria leve. o vocal vai e vem conduzido pelo dub. como uma viagem sem pressa com paradas na estrada e bela paisagem no horizonte. como eu queria que fosse eu e você, tardes e noites sem obstáculos em ritmo de canção fácil. o melhor momento, nosso refrão, repetido sempre, cantado com gosto e leveza. você já sentiu como se estivéssemos em sintonia, em dança perfeita mas sem passos combinados ou ensaio? eu pensava que era assim, tão comum, até me ver longe de sua presença e ver que as outras músicas não combinavam com o solo, não preenchiam o vazio do ambiente e deixavam escapar notas solitárias que pareciam sobrar na melodia. perguntei se algum dia conseguiria reencontrar os acordes perfeitos de nosso repertório. o ponto de equilíbrio, nossa babilônia em chamas, o mundo caindo enquanto tocávamos juntos e nos tocávamos, encontrando sempre a melhor palavra, o melhor gesto, a filosofia perfeita mesmo que sem teorias quaisquer.

eu lembro as letras, lembro as notas, o ritmo.

canto baixinho o refrão enquanto ando nas ruas mais escuras, é meu mantra, minha saída, mas já parece fraco, sem aquele encanto de outrora. falta tua voz no dueto perfeito que agora busco sem sucesso nos classificados e nas ruas de toda a cidade.



Escrito por .mensonge às 16h05
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referências demais

depois de todas as promessas e buscas por novos rumos
eu estava novamente nos mesmos lugares, ou pior,
cada vez mais afundado na lama e na boca do lixo.
talvez não houvesse nenhuma escapatória além dos poemas
de amor
e reggaes sinceros de cadência perfeita.
eu seguia porque acreditava,
mas minhas leis não se escreviam em livros
sagrados e mudavam com a constância de uma chuva de verão.
subia e descia as escadas do inferno
e da desfaçatez com que me embrenhava
nos submundos, apreciando a decadência
e sentindo-me como parte da corja que habitava ruas esquecidas
e esquinas malditas.
cerveja, samba, escuridão,
beijos e alguma esperança.
voltava no primeiro metrô com cada vez menos respostas e um sono intranquilo
apoiado na janela.
a ressaca, a cama, o despertador tocando
irritante e desnecessário
na manhã salgada do domingo morno. 
então forçava a volta do sono, do sonho.

na cabeça, cantava o refrão e lembrava dos melhores dias.

do amor encontrado, mesmo que perdido.

e ainda lembrava de cabeça a música no rádio no dia derradeiro.
(que fingia esquecer).



Escrito por .mensonge às 02h37
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somente mais uma do calendário

o sol da manhã de julho sussurra palavras complicadas e frases rotineiras. o sol da manhã de agosto queima um pouco mais e faz gestos incompreensíveis. as nuvens dizem mais e a chuva, essa sim, se faz entender plenamente. então conversávamos, eu e aquela garoa fina do meio de tarde, em meio ao horário de almoço esticado por ausência do chefe e vale-refeição acumulado. na ausência de companhia, escutava algumas histórias tristes contadas por acordes simples de guitarra e percebia sempre a distorção das coisas, até no som do rock que me chegava aos ouvidos via fone e celular moderno com mp3. na lista surgiam sempre aquelas canções de dejá vú. ficava pensando se pulava para a próxima ou se me deixava levar pelas armadilhas do destino e da reprodução aleatória. eu já tinha tão poucas certezas e ainda me deixava guiar por opções randômicas. sem rumo certo, exceto a volta para o trabalho, para a escola, esse era o mês de agosto e eu ainda era o mesmo. agosto me parecia mais cínico e calado, não mais sonhador e romântico como em outros tempos. eu continuava o mesmo mas trazia cada vez mais máscaras. podia frequentar os bailes e dançar, mas não tinha muito jeito nos passos e coreografias e nem aquela animação toda de quem segue a canção popular. preferia rádios obscuras, letras em português e uma certa melancolia. preferia trocar de música e não lembrar daquele refrão. preferia dezembro e as esperanças tão bonitas de cada fim e início de ano. dezembro, ainda longe.

 



Escrito por .mensonge às 16h26
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o que te diz o par de zeros?
fim início ou recomeço, responde.
o simplismo das afirmações baratas me comove
e lembra
do livro de filosofia para jovens colegiais.

quero respostas prontas, questionamentos-padrão
mistérios cotidianos e palavras de ordem
qual mandamento bíblico.
exercícios resolvidos após o intervalo,
nota em números decimais
e alguma explicação adicinal.

tudo o que for preciso.

eu só queria, da maneira que fosse,
estar pronto para a PROVA FINAL.



Escrito por .mensonge às 00h59
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HISTÓRICO



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