mensonge
 

 

Estava a dois quilômetros de casa e ainda assim perdido e querendo somente voltar para um lugar que fosse como um lar doce lar. Como quando pegava o carro e fazia o caminho de volta sabendo todas as conversões e ruas, sem olhar placas ou fazer dúvidas. Peguei a garrafa e coloquei mais um gole no copo, ainda quase cheio. Pedro fitava a mesa com olhos cansados. Estávamos em uma terça-feira, uma noite comum daquele mês de setembro, que chegava ao fim junto com a minha paciência e sossego. Algum descaso com o semestre letivo permitia um encontro para conversa séria em meio à semana. Uma mensagem de celular convocava. “Breja no Zé?” Pedro respondera que sim, com um “to lá em meia hora”.

Um pouco de silêncio. Na mesa e no bar. Além de nós, havia mais três pessoas por ali, todos acima dos quarenta anos e com o rosto castigado pelo tempo, pela cachaça e pelas desilusões. Eu e Pedro, vinte anos recém completos, destoávamos do ambiente mas não chegávamos a chamar a atenção. Ali eram raras as intromissões. Cada freqüentador mantinha um diálogo solitário com o copo ou com o Zé, normalmente algum papo sobre o atual cenário político ou a tabela do campeonato brasileiro.  

Era difícil pensar, acreditar, assumir que dois sábios pregadores da promiscuidade e do descomprometimento estavam ali, mudos frente a garrafas que se esvaziavam, sem palavras de consolo mútuas. Sem Bíblia para guiar as ações, sem mapa que desse o caminho na estrada, sem números de telefone para encontrar palavras de consolo, sem horizontes azuis em meio às manhãs cinzentas da grande cidade em uma primavera de muito frio e poucas flores.

Pedro me mostrava mensagens de celular carinhosas de tempos atrás. Eu me apegava a mensagens de orkut e recados escritos a mão na última página do caderno. Éramos náufragos, agarrados a detalhes sem valor e esperando por alguma salvação. Só não conseguíamos saber qual era o momento certo de abandonar de vez um barco que parecia furado e se lançar ao mar e à sorte dos ventos. Esperanças, sempre, faziam com que o tempo perdido se acumulasse em ampulhetas sem retorno.

Era triste para mim seguir em frente sem âncoras, sem pesos. Por estranho que fosse, me pesava a leveza. Faltavam-me os fantasmas, o peso, tantos aprendizados, beijos errados, perdidos, roubados, mortos, tristes. Eu queria sempre a esperança da busca do tempo perdido, do recomeço, da glória tardia, do renascimento.

Colecionando fantasmas na gaveta de esperanças.  

 



Escrito por .mensonge às 23h45
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ainda por aqui

abro os olhos em um dez de setembro de sono, café e frio matinal. o despertador tocou como em todos os dias e a labuta seguirá sua toada normalmente. não se confirmaram os temores. ontem a comunidade científica temia pelo fim de todas as coisas. experimentos dentro de 27 quilômetros de túneis subterrâneos na Europa fariam com que átomos e micropartículas se chocassem. para simular o começo de todas as coisas.

tentando recriar um início, recuperar uma lembrança, resgatar o tempo perdido. ao mesmo tempo temendo o fim, o desastre, o buraco negro.

eu já tivera minhas experiências pessoais nesse campo, tão científico, mas tão impreciso. não adiantavam meus cálculos ou palavras bem escritas. as possibilidades é que se chocavam qual átomo, em embates épicos que somente eu podia presenciar. dúvida, timidez, contra medo, ousadia, loucura e ebriedade. como se preparando um drinque, misturava tudo e fazia os testes devidos. terminava, invariavelmente, embriagado e abandonado no metrô da madrugada em caminhos cada vez mais longos e solitários de volta para casa. ou a pé pelas ruas escuras da vizinhança, em reflexões embaladas por um joão gilberto cantando sussurrado em fones de ouvido.

afinal, o mundo ainda está aí. não veio o fim fácil, sem epílogo. como em minhas desventuras e experimentos, dando certo ou errado, tudo ficou. guardado. e seguimos em frente na busca da fórmula correta.

para o fim ou para o começo.



Escrito por .mensonge às 10h25
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constante epílogo.

Não que tudo aquilo de repente não significasse nada. O novo era sempre o novo e, afinal, existia um fascínio simples em conhecer sua intimidade. Por isso, quando fiquei sabendo subi correndo pela escada. Da casa enorme entrei em todos os sete quartos e, já consciente do destino, só a encontrei no último.

Ainda guardava calor o corpo repousado no sofá, em um quadro praticamente ultra-romântico pintado bem em frente às órbitas ainda embaçadas, ainda confusas. Inútil, ainda tentou buscar um sopro qualquer. Não achou, bebeu a cerveja e lamentou.

E foi só depois da vela de sete dias que entendeu: duro não era o beijo sem o teu, a visão limpa sem tua vista míope, o tempo ganho sem o teu perdido e as tolices sem tuas responsabilidades. Duro era ter que assumir o gosto pelo engano e aceitar, ainda que resignado, a minha dose de verdades inconvenientes e que pesavam nos ombros para alguém que sempre imaginou os passos tortos em cenas de filme. Difícil entender que aquele rumo errado, torto, era apenas uma certeza. Não acaso, não questão de tempo.

Queimou até o fim e apagou quando não existia mais chama. Sua vela que acendi em frente aquela foto que você nunca viu. E junto ao bilhete deixado na cabeceira eu pensava em todas as coisas não ditas, nos silêncios prolongados e tão reveladores quanto proféticos. Entendia só agora o apego à nostalgia sedenta, o egoísmo daquela presença ilegal, quando, na realidade, não podia carregar mais peso do que as poucas certezas permitiam. Sobrou a frase que resumiu um capítulo aberto no peito, nas folhas e nos sonhos. ‘Prefiro a mentira, pois a verdade derramada no ouvido é fria’.



Escrito por .mensonge às 00h54
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