mensonge
 

sobre tudo o que não se pode falar

 

gostava de andar de trem, mas só de noite, quando via pelas janelas do vagão as avenidas vazias onde os poucos carros eram pontos vermelhos de luz traseira e se moviam harmonicamente, na direção oposta do caminho feito nos trilhos. então era como se estivesse, finalmente, indo na contramão dos fatos. era lento o caminho pelos trilhos e em algumas estações era mesmo difícil ler a placa que indicava o endereço correto. não importava. passava por ele algum cara vendendo cerveja gelada e esperança. na frente da porta, um mendigo que parecia estar em algum outro universo, na brisa de alguma droga ilícita, conversava com uma latinha vazia de cerveja vagabunda como se falasse ao telefone. intrigante. freitas viajava sozinho sem a ajuda de entorpecentes, levado apenas pelo leve balanço do vagão e pelas visões de ruas vazias da zona leste através de janelas escuras. nos entretempos, lia e relia nove palavras de uma mensagem na tela de cristal líquido do celular. "foi bom te ver. tava com saudades. um beijo". a mais simples das mensagens messiânicas. um versículo de sua bíblia particular, escrita após glória e calvário. gostava de reler os trinta e dois capítulos daquela novela, armazenados na memória do aparelho celular. uma novela sem muitos personagens nem audiência. agora pensava nos próximos passos. era incrível como conseguia dar tanta importância a um encontro de dez minutos e nove palavras digitais. havia visto patrícia rapidamente no dia anterior, enquanto andava com os amigos rumo a uma quadra de futebol. "oi tudo bem como vai quanto tempo vamos nos falar mais nos rever marcamos algo tomar uma cerveja ver um filme certo até a próxima se cuida gosto de você beijo". e de repente se vira sozinho ali na rua, patrícia caminhando para um lado depois de um último aceno, seus amigos para o outro em um papo descontraído que não combinava com a importância do momento. correu para alcançá-los. o rosto ainda quente do contato com ela. voltou para a companhia dos colegas em passos rápidos. discutia-se o clássico choque-rei. freitas permaneceu em silêncio. o confronto entre seu time e os combinado dos estudantes de publicidade não parecia mais importar. mas a alternativa era pensar e reviver e lamentar o encontro casual e fútil com a patrícia. e pensar se realmente aquele diálogo-padrão podia significar alguma coisa. e imaginar o que andaria ela fazendo, com quem estaria se envolvendo e todas essas coisas. sentiu um princípio de dor de cabeça. doença relâmpago. já na quadra, colocava as luvas. era melhor se concentrar ali. dois tempos de vinte minutos e tudo resolvido, com placar final e vencedor claro. agora rememorava o confronto. vitória suada, sete a cinco com direito a grandes defesas. descia agora dos vagões, em uma estação bonita e grandiosa, mas semi-vazia e um tanto deprimente naquele momento. hoje não tinha um confronto mais imediato para desviar a atenção. os amigos estavam todos ocupados com quaisquer coisas e ele estava ali, sozinho rumo aos mesmos bares de todo fim de semana. parecia a cada sábado um pouco mais perdido, os olhos verdes se descoloriam e logo seriam cinzas contra a pele cada vez mais pálida. como um andarilho, desceu as escadarias com rosto inexpressivo e passos lentos. talvez não precisasse da patrícia ou de jogos de futebol ou de cerveja no bar do zé todos os sábados. eram, afinal, suas únicas certezas e eram tão incertas quanto o significado de nove palavras em torpedo SMS sem pontuação e sem delongas. pegou o metrô e se deixou afundar no barulho alto da composição passando pelo subterrâneo da cidade. passou da estação.desceu duas depois. não signigicava nada, talvez fosse apenas piorar as coisas. talvez terminasse a noite perdido sozinho em um bairro desconhecido. mas precisava somente de mudanças e de certezas que não evaporassem ao primeiro sinal do sol.   



Escrito por .mensonge às 12h28
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pedro não comia putas.

freqüentava a mais baixa esfera da sociedade, dormia em sofás sujos e tomava drinques fracos ao som de música ruim. assistia stripteases feitos com empolgação nula, via marmanjos, garotos espinhentos e japoneses de terno armani e pose milionária dividirem o mesmo teto e trocarem palavras empolgadas sobre a performance da garota loira no palco desajeitado. conversava, ele também, com todos esses tipos e encontrava perdidos vindos de todas as direções. seguiam, afinal, o mesmo mapa que indicava caminhos confusos para lugar nenhum. e ainda assim conseguiam chegar perto: deviam estar a poucas quadras do limbo.

mas pedro não comia putas.

diferenciava-se do senhor grisalho, do adolescente classe média, do jovem libertário, do casado aventureiro. não era por falta de dinheiro, não era por convicção moral, nem mesmo por asco ou falta de tesão. ele simplesmente não poderia explicar. não se achava melhor nem pior do que ninguém por isso, não condenava puritanos nem putanheiros. mas mantinha-se longe do sexo pago à vista. isso, vindo dele mesmo, era estranho, assustador, difícil entender como o rapaz que pensava comprar o mundo no cheque pré podia pensar tão mesquinhamente, dar as costas ao poder do dinheiro contra as desventuras sexuais de seus vinte e dois anos.

ia embora sempre com a promessa de não voltar. não tinha remorso, nem segredos, culpa jamais, paixões sim, tantas que não se incomodava em adquirir mais uma, nem que fosse por uma garota da noite com preço fixo e horário controlado. eram tantos amores que ele não sabia mesmo amar e então seguia o caminho sem volta, brincava no submundo e se divertia tentando ser um deles. não era.

 



Escrito por .mensonge às 02h52
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 .sem ponto de fuga

 

- isso não leva a nada.

- você fala como se soubesse para onde quer ir.

realmente não sabia e isso causava algo como um calafrio. aquela estranheza, um aperto no peito, franzir do cenho, piscar lento dos olhos.

- espero continuar assim. no dia em que meus rumos puderem ser desenhados como uma reta ou explicados como um caminho em um mapa, eu desisto.

era engraçado. falava aquilo mas podia ser encontrado todos os sábados no mesmo bar. o carro ficava estacionado sempre na rua ao lado, debaixo da árvore e em frente ao posto desativado. a cerveja era sempre a brahma e a volta pra casa ao som de reggae e mpb.

- claro. sua vida é um círculo, não uma reta.

- como órbita sem ponto de fuga.

- e sem lua para reger as marés.

- estamos falando como os caras do horóscopo.

- a diferença é que eles nunca acertam.



Escrito por .mensonge às 02h34
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