mensonge
  e então aquele que não deixou endereço finalmente encontrou seu lar. não era mais na mentira concreta do mensonge, agora abandonado. mas na simples verdade abstrata de todos os dias.

Escrito por .mensonge às 14h06
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- então está acabado?

- parece que sim. não tinha mais o fôlego de um jovem. agonizou durante alguns meses. ainda teve seus bons momentos. mas levará na memória, porque não há como prosseguir.

- é sempre uma decisão difícil.

- todas decisões têm sua dificuldade implícita.

o jovem rapaz pegou suas coisas. partiu para outra. estava acabado o trabalho por ali. a mentira continuaria. e como não? mas em outras terras. em doze toques. sempre com aquela sua simplicidade, deu adeus aos companheiros com aquele aperto de mão vacilante e sorriso caipira no rosto.

 

o segundo se despediu mais timidamente. não gostava desses momentos de emoção. preferia se afastar do que pudesse machucar. era um pouco covarde, talvez. seguia pela faixa da direita e evitava atalhos. mas buscava entradas em cidades sujas e aventuras desconhecidas. dizem que dali foi para um tal de spleen bar. ah, era, realmente, um romântico enrustido.

o terceiro e último também teve que aceitar. com um menear de cabeça, procurou o canto mais escuro onde aguardou alguns momentos antes de prosseguir a jornada. era também mais fraco do que podia imaginar, mas não havia ónde se agarrar. saiu sem deixar endereço.



Escrito por .mensonge às 16h27
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la soledad de dos.

 

As coisas ficam mais fáceis quando não se tem uma foto para se olhar, então o acordo era esse. Nada de sorrisos bem planejados, nada de documentários especialmente pessoais. E entre eles, fugas eram rotina. Correspondiam à mesma ausência, a mesma falta de dor em não criar algo excessivamente real. Respiravam o mesmo ar fatigado dos que não memorizavam as datas honestamente. Os olhos focados e objetivos, nada errado. Dois corpos procurando a razão para o não. Era uma questão temporal, temporária, tempestiva.

Era novo, e era ousado, e era a coisa menos inteligente a ser feita. Mas era preciso algo lá dentro. Espécie de mistura de esporte radical e filme alternativo. Então ele entrou, desbravando a casa, o quarto e a cama. E ouvia 'deixa essa vergonha de lado menino, deixa ela pra lá, deixa que só eu te beijo se você não quiser me beijar'.
A música conhecida na vitrola, os rostos iluminados pela luz de uma televisão ligada, só para não se sentirem solitários demais na coletiva solidão. Brasileiro tem essas manias doidas.

O sonho, depois o cigarro e o sono. E assim eles sabiam que a gente é mesmo preso a essa coisa toda carnal, que lembrança por lembrança se vende em loja da Kodak e o que fazia falta era a palma da mão acariciando o peito e o colo, e o grito, e o choro. Mas eles eram diferentes porque tinham consciência de que o mundo tem tantos bilhões, que querer se apoderar de um só peito e um só colo era quase uma vergonha em forma de poesia concreta, e que era tudo mais fácil quando ele não acordava ela antes de ir embora.

A felicidade deles não era nada e nem estava neles. Sequer estavam, sequer era alguma forma explícita de algo que pudessem chamar felicidade. Mas sem carta amarrada por fio de cabelo, cd com música favorita e travesseiro impregnado de cheiro de amor, era muito mais fácil se desfazer do que não havia sido feito, silenciosamente escorregar rua abaixo sem ter que recolher caixa em porta de casa com nome rabiscado, ou encontro marcado para desarmar aquela falta de amor. 



Escrito por .mensonge às 09h58
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[dias sem data]

era sempre difícil para ele. quando saíamos todos os amigos, invariavelmente alguém precisava se ligar um pouco no marco. bebia como se fosse seu último dia na terra e tragava o baseado de um modo que fazia parecer fumar um daqueles cigarrinhos de menta para garotas. era um cara forte, mas mesmo assim às vezes sucumbia aos exageros e terminava a noite em uma conversa amigável com o vaso sanitário, a última refeição boiando no meio de outros dejetos. esse não era o problema, porém. éramos todos tão jovens ainda, 16 anos e já começando aquela vida que achávamos tão torta e por isso nos esforçávamos por seguir. eu às vezes pensava que tinha lido os livros errado ou talvez um pouco antes do tempo. joão e carlos tiveram simplesmente o azar de me conhecer. e o marco...bem, o marco surgira como se já fosse da turma há tempos. deixe-me dizer que éramos uns caras assim perdidos na vida, daquele tipo que poderia ser expulso de casa a qualquer momento. mas ao mesmo tempo já buscávamos algum trabalho, medíocre que fosse - e era só nesse nível que arranjaríamos - para pagar nossa conta do supermercado em carrinhos recheados de bebida, salgadinhos e cigarros - tudo à base de rg falso, exibido com orgulho. 


éramos o lixo, o fundão, a noite maldormida. com os falsos dezoito anos começamos as primeiras aventuras de mundo adulto. lá estávamos, centro da cidade, num puteiro de onde fomos expulsos depois de meia hora, quando alguma coisa que nunca vamos saber o quê nos denunciou. talvez a expressão meio perplexa entre a timidez e o desejo no rosto daquela molecada. o próximo passo foi uma daquelas baladas descoladas, open bar, as garotas lindas já na fila, atiçando quem passava. melhores roupas, perfume e um pouco de vodka vagabunda na cabeça e lá estávamos nós.  desaparecemos e nos perdemos de nós mesmos no meio do álcool, das meninas e da música ruim. quando dei por mim estava sentado na privada de uma cabine, dormindo e já com os primeiros sinais de ressaca. saí dali e vi a pista quase vazia, poucos resistentes sobrando no salão. saquei o celular e vi coleções de chamadas perdidas. é, eu que tinha dado o papelão dessa vez. saí para a rua e procurei a pracinha, pra comer algum hot-dog barato feito por tiozinho simpático de camisa do corinthians. estavam ali os caras, um tanto quebrados também. parecíamos saídos diretamente das cenas extras de trainspotting ou das ultimas paginas de um bukowski. 

marco estava largado no banco, os pés jogados na grana, o tronco todo torto e os braços apertando forte uma garrafa de velho barreiro quase cheia. ainda bem, afinal, seria de se espantar se depois de uma festa daquelas ele ainda tivesse coragem de encarar a marvada. provavelmente era apenas necessidade de algo entre as mãos. seus olhos fitavam o céu e ele falava algumas baboseiras desconexas. joão virou pro lado e pareceu dormir confortavelmente no gramado. carlos estava em estado parecido com joão, mas levantou balbuciando alguma coisa sobre banheiro e desapareceu. 

"puta merda"

era o marco falando.

"eu quero minha casa eu quero um baseado eu quero mais uma cerveja e um dog. cara..."

então era isso. o que mais poderia querer?

"vai se foder, marco. você tá com essa garrafa aí na mão e não aguenta é mais nada. você só quer dormir, pronto, fica de boa. logo o carlos volta e a gente já vai embora".

então ele ficou quieto. por um momento pensei que tivesse dormido. não, estava só quieto. contemplando a noite. deviam ser cinco horas da manhã. quase dia. 

"freitas..."

"fala marcão"

"o que acontece comigo...eu..." - hesitou um momento. voltou ao silêncio. fiquei também mudo, esperando. sabia que, do jeito que estava, ele ia logo soltar o que queria, o que precisava falar. 

deu um gole na garrafa de cachaça, fazendo uma careta estranha. 

"tomei um pé na bunda da natália. merda. caralho. aí acabou tudo. tomei mais uns vinte de todo tipo de menina. e agora tô aqui, abraçado numa garrafa de pinga. não dá cara. não é isso o que eu quero. não entendo. mesmo". 

fiquei com pena. não que eu tivesse muitos motivos para isso. tinha levado quase tantos foras quanto ele e a última coisa que lembrava antes de acordar num banheiro sujo era de ser empurrado por uma gordinha horrível. mas era triste ver o amigo daquele jeito. talvez precisássemos acostumar mais a levar porrada. queria ir lá e dar um murro direito, certeiro, no queixo do marco. ver o sangue sair e dizer "agora bate em mim. vamos aprender essa merda toda". mas era cena de filme. deixe o clube da luta para lá. 

"eu entendo. eu entendo", disse, pegando o celular. 

"vou ligar pro carlos. acorda o joão. vamos dar o fora daqui"

"e vamos pra onde?"

"não sei. dormir, acho. cada um pra sua casa". 

"e o que vamos fazer amanhã? não tô mais muito afim de outra festa dessa"

"eu não sei marco. eu prefiro não saber".

levantei e olhei em volta. poucas pessoas na praça, a maioria em um estado semelhante ao nosso. no momento, cansado, com indícios de ressaca e vendo os amigos ainda piores...parecia não haver mais qualquer glamour naquilo tudo. as noites de loucura tinham menos sentido. pensei em como seria ter algo mais do que uma garrafa de velho barreiro para abraçar.

"puta merda, vamos logo embora. e me dá um gole dessa porra. já tô pensando besteira". 
 
 


Escrito por .mensonge às 13h50
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love is a losing game

Olhou em volta e percebeu que estava onde sempre deveria estar. O primeiro aviso veio da companhia no balcão do boteco. A cerveja de sempre e mais alguma bebida nova para quebra de rotina. O segundo veio logo em seguida. Poucos metros rua abaixo, os abusados correm na sexta-feira fria. Esquinas cheias como sempre.

O sinal vem do esmalte vermelho. Durante dois ou três segundos olhava fixamente para aqueles delicados dedos, as unhas perfeitamente pintadas. Ergue a cabeça, observando se alguém havia notado. Nada.

E engolindo a coragem como fosse pedra no estômago, só conseguia repetir que o 'amor é mesmo a maldade do mundo'. Esboçou algum ar de felicidade, balbuciou alguma canção que remetia a tempos de liberdade espiritual. Sentou-se derrotado. Não queria aceitar que talvez não houvesse realmente mais complicações, que havia encontrado a felicidade e ponto. Não poderia ser só isso. Teria que haver viagem ao deserto, solidão, mudanças climáticas e sangue que justificasse tudo isso.

Era preciso mais.

O terceiro e último aviso encontrou em uma pilha de CDs perdidos. Foi rodar pela noite, respirar o ar quente e úmido sem rota prévia. Pensava em como carregar o peso de não ser tão feliz como todos imaginavam que seria. Enquanto isso, Amy profetizava pelas caixas acústicas ‘love is a losing game’. A única coisa que ouviu nos últimos tempos e fazia algum sentido. Pelo menos por ora.



Escrito por .mensonge às 09h40
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HISTÓRICO



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