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[dias sem data]
era sempre difícil para ele. quando saíamos todos os amigos, invariavelmente alguém precisava se ligar um pouco no marco. bebia como se fosse seu último dia na terra e tragava o baseado de um modo que fazia parecer fumar um daqueles cigarrinhos de menta para garotas. era um cara forte, mas mesmo assim às vezes sucumbia aos exageros e terminava a noite em uma conversa amigável com o vaso sanitário, a última refeição boiando no meio de outros dejetos. esse não era o problema, porém. éramos todos tão jovens ainda, 16 anos e já começando aquela vida que achávamos tão torta e por isso nos esforçávamos por seguir. eu às vezes pensava que tinha lido os livros errado ou talvez um pouco antes do tempo. joão e carlos tiveram simplesmente o azar de me conhecer. e o marco...bem, o marco surgira como se já fosse da turma há tempos. deixe-me dizer que éramos uns caras assim perdidos na vida, daquele tipo que poderia ser expulso de casa a qualquer momento. mas ao mesmo tempo já buscávamos algum trabalho, medíocre que fosse - e era só nesse nível que arranjaríamos - para pagar nossa conta do supermercado em carrinhos recheados de bebida, salgadinhos e cigarros - tudo à base de rg falso, exibido com orgulho.
éramos o lixo, o fundão, a noite maldormida. com os falsos dezoito anos começamos as primeiras aventuras de mundo adulto. lá estávamos, centro da cidade, num puteiro de onde fomos expulsos depois de meia hora, quando alguma coisa que nunca vamos saber o quê nos denunciou. talvez a expressão meio perplexa entre a timidez e o desejo no rosto daquela molecada. o próximo passo foi uma daquelas baladas descoladas, open bar, as garotas lindas já na fila, atiçando quem passava. melhores roupas, perfume e um pouco de vodka vagabunda na cabeça e lá estávamos nós. desaparecemos e nos perdemos de nós mesmos no meio do álcool, das meninas e da música ruim. quando dei por mim estava sentado na privada de uma cabine, dormindo e já com os primeiros sinais de ressaca. saí dali e vi a pista quase vazia, poucos resistentes sobrando no salão. saquei o celular e vi coleções de chamadas perdidas. é, eu que tinha dado o papelão dessa vez. saí para a rua e procurei a pracinha, pra comer algum hot-dog barato feito por tiozinho simpático de camisa do corinthians. estavam ali os caras, um tanto quebrados também. parecíamos saídos diretamente das cenas extras de trainspotting ou das ultimas paginas de um bukowski.
marco estava largado no banco, os pés jogados na grana, o tronco todo torto e os braços apertando forte uma garrafa de velho barreiro quase cheia. ainda bem, afinal, seria de se espantar se depois de uma festa daquelas ele ainda tivesse coragem de encarar a marvada. provavelmente era apenas necessidade de algo entre as mãos. seus olhos fitavam o céu e ele falava algumas baboseiras desconexas. joão virou pro lado e pareceu dormir confortavelmente no gramado. carlos estava em estado parecido com joão, mas levantou balbuciando alguma coisa sobre banheiro e desapareceu.
"puta merda"
era o marco falando.
"eu quero minha casa eu quero um baseado eu quero mais uma cerveja e um dog. cara..."
então era isso. o que mais poderia querer?
"vai se foder, marco. você tá com essa garrafa aí na mão e não aguenta é mais nada. você só quer dormir, pronto, fica de boa. logo o carlos volta e a gente já vai embora".
então ele ficou quieto. por um momento pensei que tivesse dormido. não, estava só quieto. contemplando a noite. deviam ser cinco horas da manhã. quase dia.
"freitas..."
"fala marcão"
"o que acontece comigo...eu..." - hesitou um momento. voltou ao silêncio. fiquei também mudo, esperando. sabia que, do jeito que estava, ele ia logo soltar o que queria, o que precisava falar.
deu um gole na garrafa de cachaça, fazendo uma careta estranha.
"tomei um pé na bunda da natália. merda. caralho. aí acabou tudo. tomei mais uns vinte de todo tipo de menina. e agora tô aqui, abraçado numa garrafa de pinga. não dá cara. não é isso o que eu quero. não entendo. mesmo".
fiquei com pena. não que eu tivesse muitos motivos para isso. tinha levado quase tantos foras quanto ele e a última coisa que lembrava antes de acordar num banheiro sujo era de ser empurrado por uma gordinha horrível. mas era triste ver o amigo daquele jeito. talvez precisássemos acostumar mais a levar porrada. queria ir lá e dar um murro direito, certeiro, no queixo do marco. ver o sangue sair e dizer "agora bate em mim. vamos aprender essa merda toda". mas era cena de filme. deixe o clube da luta para lá.
"eu entendo. eu entendo", disse, pegando o celular.
"vou ligar pro carlos. acorda o joão. vamos dar o fora daqui"
"e vamos pra onde?"
"não sei. dormir, acho. cada um pra sua casa".
"e o que vamos fazer amanhã? não tô mais muito afim de outra festa dessa"
"eu não sei marco. eu prefiro não saber".
levantei e olhei em volta. poucas pessoas na praça, a maioria em um estado semelhante ao nosso. no momento, cansado, com indícios de ressaca e vendo os amigos ainda piores...parecia não haver mais qualquer glamour naquilo tudo. as noites de loucura tinham menos sentido. pensei em como seria ter algo mais do que uma garrafa de velho barreiro para abraçar.
"puta merda, vamos logo embora. e me dá um gole dessa porra. já tô pensando besteira".
Escrito por .mensonge às 13h50
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